É mais fácil cultuar os mortos que os vivos. É mais fácil viver de sombras que de sóis. É mais fácil mimeografar o passado que imprimir o futuro. Não quero ser triste, como o poeta que envelhece lendo maiakóvski na loja de conveniência. Não quero ser alegre, como o cão que sai a passear com o seu dono alegre sob o sol de domingo. Nem quero ser estanque, como quem constrói estradas e não anda. Quero no escuro, como um cego, tatear estrelas distraídas. Amoras silvestres no passeio público, amores secretos debaixo dos guarda-chuvas, tempestades que não param, pára-raios quem não tem. Mesmo que não venha o trem, não posso parar. Vejo o mundo passar como passa uma escola de samba que atravessa. Pergunto onde estão teus tamborins. Pergunto onde estão teus tamborins, sentado na porta de minha casa. A mesma e única casa, a casa onde eu sempre morei.

Salve Zeca