"... A gente tem uma vida... uma vida de babacas. Comemos, dormimos, transamos, saímos... cada dia é a repetição incosciente do anterior: a gente come uma coisa diferente, a gente dorme melhor, ou pior, transa com outra pessoa, vamos à um lugar diferente quando saímos, jamais é igual. Sem objetivos, sem interresse. Nós continuamos e nos determinamos à objetivos materiais. Poder. Dinheiro. Filhos. A gente perde a cabeça tentando realizá-los. Mas, ou a gente nunca consegue alcançá-los, e fica frustrado para o resto da vida; ou, quando consegue, percebe que não dá a mínima. Depois a gente morre. Fica com a boca cheia de terra. Quando a gente se dá conta disso, a vontade que dá é de encher logo a boca de terra, para não ficar lutando em vão, pra pregar uma peça na fatalidade, pra escapar da armadilha. Mas a gente tem medo. Medo do desconhecido. Do pior. Então, quer queira, quer não, a gente fica sempre esperando alguma coisa. Do contrário, já teríamos apertado o gatilho, engolido a caixa de comprimidos, pressionado a lâmina da navalha até o sangue jorrar... A gente tenta se distrair, fazer a farra, a gente procura o amor; acha que encontrou, e depois vem a recaída. De muito alto. A gente tenta brincar com a vida pra fingir que a domina. A gente anda rápido demais, andamos a beira do abismo, cheiramos em demasia, beirando a overdose. Isso assusta os nossos pais, q vêem seus genes de banqueiros, grandes executivos, homens de negócios, se degenerarem a esse ponto. É uma coisa inacreditável para eles. Tem uns que tentam fazer alguma coisa a respeito, outros desistem. Tem uns que nunca estão presentes, que nunca abrem a boca, mas que assinam o cheque no final do mês. E são detestados pela gente por tanto e tão pouco. Darem tanto para que a gente se foda por aí e tão pouco daquilo que realmente importa. De forma que a gente acaba sem saber justamente o que importa, os limites se perdem. A gente é uma espécie de elétron sem núcleo. Temos um cartão de crédito no lugar do cérebro, um aspirador no lugar do nariz, e nada no lugar do coração. Vamos às boates muito mais do que às aulas, temos mais moradias que amigos de verdade, 200 numeros de telefones nos nosso caderninhos para os quais nunca ligamos. E a gente nao tem o direito de se queixar, porque aparentemente temos de tudo para sermos felizes. E a gente morre lentamente nos nossos apartamentos grandes demais, com sancas no lugar do céu, fartos, entupidos de cocaína e anti-depressivos... E um sorriso nos lábios..."
Hell - PARIS - 75016
