Sentimento ilhado, morto e amordaçado


Era uma daquelas noites frias, nas quais o vento sopra insuportavelmente deixando uma sensação gélida por todo o quarto, apesar das janelas fechadas. Não tinha sono, não tinha nada. Pensava incansavelmente o por que as pessoas insistiam em andar em círculos seguindo idéias ridículas de não dar o braço a torcer. Não tinha esperança, não tinha nada. Imaginava o motivo pelo qual não havia pedido aquele abraço ou dito "ei, olhe para mim! estou aqui". Seria medo de vê-lo mudar para não iludí-la? Mas não tinha medo, não tinha nada. Ela sabia que ele chegava para ela antes do dia, e ainda assim fechou-se como pétalas nalgum lugar. Seria receio de admitir que ele, somente ele, poderia abrí-la pétala por pétala como uma flor se abre ao ver surgir a primavera? Mas não tinha receio, não tinha nada. Ela tinha a certeza convicta de que apenas ele carregava consigo 'aqueles' olhares que a faziam ir do céu ao inferno em questão de segundos, aquele jeito de falar sem parar que a desconcertava deixando-a sem palavras, e ainda assim prefiriu não dizer nada. Seria por ser insegura em relação a consiguir o que realmente queria? Mas não tinha insegurança, não tinha nada. Sentiu uma súbita vontade de pegar o telefone e ligar... contar-lhe o quanto ele a fazia tremer. Mas não o fez. Seria vergonha de ser-lhe verdadeira confessando-lhe segredos até então inconfessáveis? Mas não tinha vergonha, não tinha nada. Sentiu uma imensa vontade, já que não queria ligar, de ao menos escrever-lhe uma carta escancarando-lhe o quão importante ele era. Mas não. Seria por pensar que enquanto fosse procurar a caneta e buscar o papel suas idéias teriam se dissipado como uma fumaça que sai de um trem e depois se esvaece no céu sem deixar vestígios? Mas não tinha esse pensamento, não tinha nada. Invadiu-se por uma ideía frenética de gritar que por ser indiferente ele tornava-se diferente, mas novamente não o fez. Seria por imaginar que o som alto de sua voz acordaria alguém? Mas não tinha essa idéia, não tinha nada. E então, chorou. Abafou o choro com o travesseiro, do mesmo modo como abafava tudo o que sentia. E adormeceu. Não teve medo, não teve receio, não teve insegurança, não teve vergonha; e ainda assim, não disse nada. Era uma daquelas manhãs frias, nas quais o vento sopra insuportavelmente deixando uma sensação gélida por todo o quarto, apesar das janelas continuarem fechadas e o sol já estar brilhando. Não tinha dito nada, já não podia dizer nada, não acordou. Não tinha vida, não tinha nada.